Como não amar a Copa do Mundo, mesmo com seus desafios?

Durante as Eliminatórias, o técnico do Paraguai, Gustavo Alfaro, fez um pedido especial a seus jogadores. Ele os levou a relembrar a infância, quando suas famílias enfrentavam dificuldades financeiras, mas se esforçavam para comprar algo que tivesse um grande significado — como um par de chuteiras ou uma bicicleta para facilitar o trajeto até os treinos. Aqueles garotos sonhadores imaginavam um futuro brilhante: jogar na primeira divisão, vestir a camisa da seleção e, quem sabe, até participar de uma Copa do Mundo.

Alfaro pediu que os jogadores se reconectassem com aquele menino sonhador que existia dentro deles, e o resultado foi surpreendente. Depois de 16 anos fora do Mundial e de uma campanha inicial complicada sob outros treinadores, o Paraguai conseguiu se classificar novamente. A mensagem de Alfaro teve um impacto positivo, e talvez todos nós devêssemos refletir sobre isso.

É interessante notar que, mesmo com o cenário atual, onde a política parece dominar o futebol, ainda há um espaço para a pureza infantil na Copa. Sim, a competição está cheia de questões políticas, e não podemos ignorar os torcedores que enfrentam preços abusivos e dificuldades na imigração. Também há os jogadores, que enfrentam calor excessivo e um calendário apertado. Esses problemas são reais e precisam ser discutidos, assim como questões ambientais que também surgem.

Por outro lado, a Copa do Mundo é uma oportunidade incrível de reencontrar a essência do futebol e os sonhos que carregamos desde a infância. É verdade que o futebol pode nos deixar desiludidos às vezes. No entanto, o Mundial, mesmo com suas falhas, traz de volta aquele sentimento nostálgico e puro de quando éramos crianças.

Os jogadores, ao entrarem em campo, sentem o peso e a honra de representar seu povo. E mesmo que existam sentimentos complexos por trás disso, como a vontade de provar seu valor a quem não acreditou neles, ainda assim, há uma conexão com as memórias afetivas da juventude. Lembranças de dribles em campos de terra e de treinos solitários, batendo a bola contra a parede sob a luz do poste, sempre imaginando gols decisivos contra os rivais.

E nós, como torcedores, também voltamos a ser crianças. É natural recordar de quando sonhávamos em jogar uma Copa ou de quando explorávamos países exóticos através dos álbuns de figurinhas. A primeira Copa é sempre especial. Para mim, foi em 1974, quando completei nove anos. Naquela época, eu acreditava que merecia estar lá, mesmo que meu país não tivesse se classificado. Essa é uma sensação que muitos brasileiros não conhecem, já que o Brasil sempre está entre os favoritos.

O sonho de ver o Brasil brilhar em campo me acompanhou, e mesmo com a decepção do primeiro jogo — um empate sem gols contra a Iugoslávia — a esperança permanecia. Aos nove anos, acreditava que a próxima partida seria melhor, e de fato, foi. A Holanda apareceu em campo e o espetáculo começou, com jogadas que ficaram na memória de todos.

Depois daquela Copa, contava os dias para a próxima, acreditando que, com 13 anos, as chances de ser convocado aumentariam. Como disse Gustavo Alfaro, a Copa nos leva a reencontrar a criança que fomos. Apesar de todos os desafios e questões que cercam o torneio, como não amar a Copa do Mundo?

Sobre o Autor

João Ribeiro