Son Heung-min é, sem dúvida, a grande estrela do futebol sul-coreano nos últimos 15 anos. Ele é quase uma divindade no esporte por lá. Porém, durante a última Copa do Mundo, no Catar, um nome até então desconhecido para o público fora da Coreia chamou a atenção: Cho Gue-sung. Ele entrou no segundo jogo da seleção, contra Gana, e fez dois gols, mesmo que a Coreia tenha perdido. O jovem atacante rapidamente se tornou a sensação do Mundial, passando de 20 mil seguidores para 2,6 milhões no Instagram em um piscar de olhos. As pessoas até esgotaram os ingressos para ver o time dele, e ele chegou a desligar o celular por conta de tantos pedidos de casamento.
Mas o sucesso de Gue-sung não aconteceu por acaso. Ele tomou algumas decisões ao longo da carreira que foram cruciais, inclusive uma que não é muito comum entre os jogadores de futebol sul-coreanos. O atacante não começou sua trajetória como um atacante. Após concluir o ensino médio na Anyang Technical High School, que também funcionava como base do FC Anyang, ele se matriculou na Universidade de Gwangju. Por lá, jogava como volante em uma equipe que se destacava em torneios regionais, graças a um atacante chamado Mo Jae-hyeon. Quando Jae-hyeon decidiu se profissionalizar, o técnico sugeriu a Gue-sung que ele poderia brilhar mais como atacante.
A transição não foi fácil, mas logo chamou a atenção do FC Anyang, que o contratou em 2019. No seu primeiro ano como profissional, ele balançou a rede 14 vezes na K-League 2, tornando-se o terceiro maior goleador do torneio. Seu desempenho de destaque fez com que o Jeonbuk Hyundai Motors, um dos clubes mais renomados do país, o contratasse. Embora tenha jogado pelo time em 2020, ele enfrentou dificuldades para se adaptar à primeira divisão. Foi nesse momento que uma nova decisão mudaria sua trajetória.
Na Coreia do Sul, todos os homens são obrigados a servir ao exército por um período que varia de 18 a 21 meses, e quem chega a 28 anos sem ter se alistado pode se complicar. Poucos conseguem evitar essa obrigação, a não ser que tenham realizado feitos extraordinários, como ganhar medalhas em competições internacionais. Son Heung-min, por exemplo, teve que conquistar o ouro nos Jogos Asiáticos de 2018 para evitar um alistamento mais tarde.
Muitos jogadores, como Cho, acabam adiando o serviço militar até o último minuto, jogando pelo Gimcheon Sangmu, um time do exército que disputa a K-League. Em 2021, percebendo que não estava jogando o suficiente, Gue-sung decidiu se alistar e passou um ano com o Gimcheon Sangmu, onde teve a chance de ganhar mais minutos e aprimorar seu jogo. Assim como a mudança de posição, essa decisão se mostrou acertada. Durante seu tempo no exército, ele melhorou fisicamente e tecnicamente, marcando oito gols e ajudando o time a voltar para a primeira divisão.
Quando voltou ao Jeonbuk, Gue-sung comprovou que tinha evoluído. Ele fez 13 gols e deu quatro assistências, recebendo muitos elogios do técnico Kim Tae-wan. O treinador destacou a dedicação do jogador, que sempre buscou melhorar, mesmo quando ninguém estava prestando atenção. Em uma entrevista, Gue-sung falou sobre como a convocação para a seleção aumentou sua confiança em campo. Ele se sentia mais calmo e capaz de pensar melhor durante os jogos.
No Jeonbuk, ele continuou a brilhar, marcando quatro gols na liga e sendo fundamental na Copa da Coreia do Sul, onde anotou três gols na final. Essa trajetória levou Cho à seleção para a Copa do Mundo, onde seus gols contra Gana foram essenciais para que a Coreia avançasse para a fase eliminatória.
Após o Mundial, Gue-sung recebeu propostas, mas só se mudou para a Europa em julho de 2023, assinando com o Midtjylland, na Dinamarca. Ele rapidamente se destacou como um atacante eficaz, marcando 12 gols em 30 jogos e ajudando o time a conquistar o título dinamarquês. Porém, logo após a temporada, ele enfrentou um desafio. Uma cirurgia no joelho para tratar dores se complicou com uma infecção bacteriana, resultando em mais uma operação e um longo período fora dos campos.
Cho ficou 448 dias sem jogar, e seu retorno foi marcado por desafios. Ele chegou a duvidar se conseguiria voltar a jogar. O diretor esportivo do clube, Kristian Bach Bak, também compartilhou as preocupações que todos tinham em relação à recuperação dele. No entanto, Cho retornou aos gramados em agosto de 2025 e teve uma temporada saudável, finalizando com sete gols e ajudando o Midtjylland a conquistar a Copa da Dinamarca.
Atualmente, com o retorno do capitão Hong Myung-bo como técnico da seleção, a Coreia do Sul está adotando formações que podem abrir novas oportunidades para Gue-sung. Com um esquema que usa uma linha de cinco na defesa e dois meias-atacantes, Cho tem chances de ser a referência no ataque, competindo por espaço com outros jogadores que também estão se destacando.