Tinha certeza de que iria se destacar

O dia 20 de junho de 1976 ficou marcado como um momento inesquecível da Eurocopa. De um lado estava a Alemanha Ocidental, campeã da Copa do Mundo dois anos antes, e do outro, a Tchecoslováquia, em busca de seu primeiro título na competição. O que aconteceu a seguir é uma daquelas histórias que se contam em qualquer roda de conversa entre amantes do futebol: Antonín Panenka, um meia tchecoslovaco de apenas 27 anos, fez uma cobrança de pênalti que ficaria para a história.

Enquanto os outros jogadores escolhiam um canto para bater, Panenka decidiu fazer algo diferente. Ele correu em direção à bola, mas, ao invés de chutar forte para um dos lados, ele esperou o goleiro Sepp Maier se antecipar. Com um toque sutil, ele levantou a bola no meio do gol, numa cavadinha que se tornaria famosa. Essa jogada, conhecida como “cavadinha” aqui no Brasil e “a la Panenka” na Europa, garantiu à Tchecoslováquia um título inédito e transformou o meia em um ícone.

Panenka pode não ter ficado rico com direitos autorais, mas sua jogada ousada inspirou muitos jogadores ao longo dos anos. Nomes como Djalminha, Zinedine Zidane e Loco Abreu repetiram com sucesso sua famosa cobrança. Porém, nem todos tiveram a mesma sorte; alguns, como Gary Lineker e Alexandre Pato, não conseguiram marcar em tentativas semelhantes. Em uma entrevista descontraída, Panenka, agora com 77 anos, reflete sobre o impacto que sua cobrança teve no futebol. Ele admite, com um sorriso, que a única tristeza é não ganhar nada com isso.

A origem da Panenka

Muita gente pode pensar que a cavadinha foi um ato de improviso, mas a verdade é que Panenka já tinha experimentado essa técnica antes da final. Em 1974, ele começou a treinar pênaltis com Zdenek Hruska, o goleiro do Bohemians 1905, seu clube na época. Eles apostavam, e a ideia era simples: se Hruska defendesse um dos cinco pênaltis que Panenka cobrasse, ele teria que pagar com cervejas ou chocolates. O goleiro começou a se destacar, e foi nesse momento que Panenka teve a sacada genial de bater no meio do gol.

Essa nova abordagem não só lhe rendeu as guloseimas prometidas como também o incentivou a usá-la em jogos oficiais. Durante a preparação para a Eurocopa de 1976, ele decidiu que, se tivesse a chance, cobraria um pênalti de cavadinha. Ele tinha certeza de que ninguém se atreveria a fazer isso em uma final, e isso lhe deu confiança.

A final emocionante

Na final da Eurocopa, realizada no Estádio Estrela Vermelha, em Belgrado, o jogo terminou empatado em 2 a 2, levando a uma disputa por pênaltis. A Federação Alemã de Futebol pediu que a decisão fosse feita dessa forma, algo inédito até então. As duas seleções começaram bem, convertendo as três primeiras cobranças. Mas quando Uli Hoeness errou a penúltima batida, a Tchecoslováquia chegou à sua quinta cobrança com a chance de ser campeã.

O que muitos não sabem é que a relação entre Panenka e Sepp Maier, o goleiro da Alemanha, ficou tensa por muitos anos após aquele jogo. Maier se sentiu humilhado pela cavadinha e, por décadas, os dois não se dirigiram a palavra. Panenka até brinca que o goleiro tinha um alvo com seu rosto na garagem. Mas, com o tempo, a rivalidade se dissolveu e eles conseguiram se reconectar, mostrando que a vida pode ser um grande jogo de reconciliação.

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João Ribeiro